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Criar filhos fora do Brasil: a maternidade e a paternidade sem rede

Criar um filho já é, em qualquer lugar, uma experiência que desorganiza e reorganiza uma vida. Criar um filho num país que não é o seu adiciona camadas que quase ninguém nomeia: a ausência da rede, a língua dividida, e a percepção — ao mesmo tempo óbvia e vertiginosa — de que seu filho é de um lugar do qual você não é.

Sem a rede que criou você

No Brasil, bem ou mal, cria-se com aldeia: avós que pegam no colo, tias que dão palpite, vizinha que olha um instante. No exterior, muitos casais brasileiros criam sozinhos — literalmente. Não há a quem deixar a criança para um jantar, não há a mãe para ligar às três da manhã na primeira febre (há, mas ela está a um oceano, e você não quer preocupar). A sobrecarga é concreta; o esgotamento parental, real. E ele vem com a culpa de sempre: “fui eu que escolhi criar meu filho longe de todo mundo”.

A criança entre duas línguas

Há também a novela cotidiana do bilinguismo: o filho que responde em inglês ao que você pergunta em português, que fala com os avós por videochamada num português cada vez mais telégrafo, que um dia corrige o seu sotaque na língua dele. Para muitos pais, cada palavra de português que o filho perde dói como um pedaço de Brasil que se vai. Vale dizer com clareza: transmitir a língua é transmitir um laço, não vencer uma disputa. E laço se transmite menos por cobrança e mais por desejo — pela música cantada junto, pela história contada, pelo afeto que só sai em português.

Seu filho não está deixando de ser seu quando é de lá. Ele está sendo exatamente o que você possibilitou: alguém de dois mundos.

O filho que é “de lá”

E existe a questão mais íntima, raramente confessada: a estranheza de perceber que seu filho tem uma pátria que você não tem. Ele torce para outra seleção, acha normal o inverno, não entende suas referências de infância. Entre vocês há amor — e uma fronteira. Elaborar isso não é apagar a diferença, e sim poder habitá-la sem vivê-la como perda ou traição. O filho de imigrante não é um brasileiro incompleto: é outra coisa, nova, que também é feita de você.

Cuidar de quem cuida

Pais no exterior costumam chegar à escuta depois de muito tempo se colocando por último — porque não havia com quem dividir, porque “não era hora”, porque a logística da vida sem rede não abre brecha. A terapia online, nesse contexto, tem uma vantagem concreta: cabe na rotina (na soneca da criança, no home office, no fuso que favorece). E oferece o que mais falta: um lugar onde o cuidador é quem recebe cuidado, em português, sem julgamento.

Cordialmente,
Matheus Vieira da Cunha
Psicólogo CRP 16/7659
Mestre em Psicologia (UFES)

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Matheus Vieira da Cunha, psicólogo e psicanalista em Guarapari
Matheus Vieira da Cunha

Psicólogo Clínico e Psicanalista (CRP 16/7659), Mestre em Psicologia pela UFES. Atende adolescentes e adultos em Guarapari (ES) e online, incluindo brasileiros no exterior.