Acontece geralmente numa visita ao Brasil, depois de alguns anos fora. Você desce do avião esperando o alívio de estar em casa — e estranha. O trânsito irrita mais do que irritava, as conversas parecem girar em falso, os amigos seguiram vidas em que você é visita. Aí você volta para o país onde mora e também não é bem casa. E a pergunta se instala: de onde eu sou, afinal?
O chão que a gente não sabia que pisava
Identidade é dessas coisas que só aparecem quando falham. Enquanto você vivia no Brasil, ser brasileiro não era uma questão — era o chão. A migração retira esse chão e o transforma em pergunta: lá fora, você é “o brasileiro” antes de ser você; descobre-se representante de um país inteiro, com direito a estereestereótipos que não pediu. E, ao mesmo tempo, vai absorvendo o novo lugar sem perceber: a pontualidade, o tom de voz mais baixo, o jeito de fazer fila. Até que um dia os dois países te acham estrangeiro.
A visita que desmonta o mito do retorno
Muitos brasileiros no exterior vivem sustentados por uma fantasia discreta: a do retorno. “Um dia eu volto.” Ela consola — e adia. A visita que estranha é dolorosa justamente porque arranha essa fantasia: o Brasil para o qual você voltaria já não existe; ele seguiu sem você, como você seguiu sem ele. Não se volta ao mesmo país, como não se entra duas vezes no mesmo rio. Fazer o luto do retorno impossível — o que não significa nunca voltar, e sim parar de viver com a vida em suspenso — costuma ser um dos trabalhos mais libertadores para quem mora fora.
Não se trata de escolher um lado da fronteira, e sim de poder existir inteiro em cima dela.
O estrangeiro que sempre esteve aí
A psicanálise tem uma contribuição curiosa para essa conversa: ela sustenta que há algo de estrangeiro em todo mundo, desde sempre. Freud chamou de estranho-familiar esse encontro com o que é nosso e nos parece alheio; o inconsciente, ele dizia, é uma terra estrangeira interior. Quem migra vive na geografia o que todos vivemos na intimidade: não coincidir totalmente consigo mesmo. Por isso a experiência do imigrante, quando escutada a fundo, não revela um defeito de pertencimento — revela, com nitidez rara, a condição de qualquer sujeito.
Habitar o entre-lugar
O objetivo de uma análise, para quem vive entre dois países, não é devolver um pertencimento puro que talvez nunca tenha existido. É outra coisa: transformar o entre-lugar de exílio em morada. Poder ser essa combinação única — o português de casa e a língua da rua, as duas memórias, os dois calendários — sem sentir que se está sempre devendo a um dos lados. Alguns pacientes descrevem o momento em que isso assenta com uma frase simples: “parei de me explicar”. É um bom nome para o que se busca.
Uma escuta para quem vive entre
Se essas perguntas moram em você — nos Estados Unidos, em Portugal, na Espanha, na Inglaterra, na Irlanda ou em qualquer outro fuso —, saiba que elas têm lugar de trabalho. O atendimento online em português existe exatamente para isso: uma hora semanal em que os dois países cabem na mesma frase.