Corpo & emoção

Homens não choram, homens adoecem

Ele não chega dizendo que está triste. Chega dizendo que não está dormindo, que a pressão subiu, que anda explodindo com os filhos por bobagem, que a mulher deu um ultimato. Quase nunca o motivo declarado é sofrimento. É consequência de sofrimento.

Neste texto
  1. Uma diferença que aparece nos números
  2. O que se ensina a um menino
  3. Por onde o não dito sai
  4. O medo do consultório
  5. O que costuma mudar
  6. Perguntas frequentes

Uma diferença que aparece nos números

Homens procuram menos ajuda psicológica, procuram mais tarde e abandonam mais cedo. Também vão menos ao médico em geral, adoecem mais de doenças evitáveis e morrem mais novos. O suicídio, no Brasil como na maior parte do mundo, é várias vezes mais frequente entre homens — ainda que as tentativas sejam mais frequentes entre mulheres. Isso significa que, quando o homem chega ao ponto, ele já não está pedindo ajuda: está concluindo.

Não há nada de biológico nessa distância. É aprendizado, e começa cedo.

O que se ensina a um menino

Poucas frases são ditas com tanta convicção a uma criança pequena quanto "homem não chora". Ela não vem sozinha. Vem acompanhada de "isso é coisa de menina", "aguenta", "resolve", "para de frescura".

O que se está ensinando ali não é coragem. É que existe uma classe inteira de experiências internas — medo, tristeza, desamparo, necessidade de colo — que não pode ser mostrada sem custo. O menino não deixa de sentir essas coisas. Ele aprende a não ter onde colocá-las.

Com o tempo, o efeito vai além de esconder. Muitos homens adultos chegam ao consultório com dificuldade genuína de identificar o que sentem. Perguntados sobre uma situação difícil, descrevem os fatos com precisão e o afeto com nenhum. Não é evasão. É que aquela habilidade nunca foi treinada, e o que não se nomeia fica indistinto.

Não é que ele não queira falar. É que ninguém o ensinou a reconhecer o que precisaria ser dito.

Se você se reconheceu até aqui, a terapia pode ser um lugar para pensar nisso com calma.

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Por onde o não dito sai

O sentimento sem via de expressão não evapora. Ele encontra saídas, e as saídas disponíveis para o masculino são culturalmente autorizadas em número muito menor.

A raiva é a principal. É o único afeto que o homem pode expressar sem perder virilidade — e por isso ela acaba funcionando como tradutora universal. Tristeza vira irritação. Medo vira agressividade. Insegurança vira controle. Muitos homens que se descrevem como "estourados" estão, na verdade, tristes há anos sem conseguir chamar aquilo pelo nome.

Há o corpo. Pressão alta, dores de cabeça, problemas gástricos, tensão que não cede. O corpo se torna o lugar onde o não dito insiste, e o cardiologista acaba sendo o primeiro profissional de saúde mental que muitos homens procuram, sem que ninguém use esse termo.

E há o excesso: álcool, trabalho, jogo, pornografia, exercício até o limite, telas até o sono não vir. São formas de anestesia que a cultura tolera bem — em alguns casos, aplaude. Um homem que bebe todos os dias após o expediente costuma preocupar menos as pessoas ao redor do que um homem que chora numa reunião de família.

O medo do consultório

Quando finalmente se cogita a terapia, aparecem objeções bastante específicas.

Que é coisa para quem está mal de verdade, e ele "não está tão mal assim". Que vai ser obrigado a falar da infância. Que vai ser julgado por coisas que já fez ou pensou. Que vai chorar na frente de um estranho. Que vai virar dependente. E, no fundo de tudo, uma inquietação que raramente é dita em voz alta: se eu abrir isso, será que eu consigo fechar de novo?

Vale responder a essa última, porque é a mais legítima. O trabalho analítico não é uma demolição. Ninguém é levado a lugares que não consegue sustentar; o ritmo é da pessoa, e resistir também é informação clínica, não obstáculo. Não existe obrigação de chorar, de falar da mãe, nem de contar tudo na primeira sessão. Existe apenas um lugar onde o que for dito não terá consequência social.

Esse último ponto costuma ser o que mais importa. O homem que sustenta uma casa, uma equipe ou uma família frequentemente não tem nenhum interlocutor a quem possa dizer que está com medo. Contar à esposa gera preocupação. Contar aos amigos vira piada. Contar no trabalho é impensável. A ausência de escuta não é escolha dele — é um fato da vida adulta masculina.

O que costuma mudar

Homens que permanecem em análise relatam, com uma frequência que chama atenção, mudanças bem parecidas. Menos explosões, porque a raiva deixou de ser o único canal disponível. Sono melhor. Mais paciência com os filhos — muitas vezes essa é a primeira coisa que a família nota. Conversas com a companheira que deixam de ser negociações e passam a ser conversas.

E algo mais difícil de descrever: a sensação de não estar mais sozinho dentro da própria cabeça. Não porque os problemas tenham sumido, mas porque deixaram de ser carregados em silêncio.

Se você é homem e chegou até aqui, provavelmente reconheceu alguma coisa. Não é preciso estar em crise para procurar. A ideia de que só se busca ajuda quando não há mais saída é exatamente a que faz tantos homens chegarem tarde demais.

Perguntas frequentes

Por que homens demoram tanto a procurar terapia?

Porque desde cedo aprendem que medo, tristeza e desamparo não podem ser mostrados sem custo. O sofrimento não desaparece: sai pela raiva, pelo corpo ou pelos excessos, e a ajuda costuma ser procurada só quando as consequências aparecem.

Vou ser obrigado a chorar ou falar da infância na terapia?

Não. O ritmo é seu, e ninguém é levado a lugares que não consegue sustentar. Não existe obrigação de chorar, de falar da mãe nem de contar tudo na primeira sessão. Existe um lugar onde o que for dito não terá consequência social.

Preciso estar em crise para procurar ajuda?

Não. A ideia de que só se busca ajuda quando não há mais saída é justamente o que faz tantos homens chegarem tarde. Irritação constante, sono ruim ou a sensação de carregar tudo sozinho já são bons motivos. Se em algum momento surgir a sensação de que não faz mais sentido seguir, não espere: o CVV atende gratuitamente, 24 horas, pelo telefone 188 ou pelo chat em cvv.org.br.

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Cordialmente,
Matheus Vieira da Cunha
Psicólogo CRP 16/7659
Mestre em Psicologia (UFES)

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Matheus Vieira da Cunha, psicólogo e psicanalista em Guarapari
Matheus Vieira da Cunha

Psicólogo Clínico e Psicanalista (CRP 16/7659), Mestre em Psicologia pela UFES. Atende adolescentes e adultos em Guarapari (ES) e online.